A fábrica de cretinos digitais. Os perigos das telas para os nossos filhos. O título do livro de Michel Desmurget, um neurocientista francês, que lidera uma equipa de investigação sobre plasticidade cerebral, no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), a mais relevante instituição pública de investigação científica francesa, é suficiente para elucidar sobre qual é o ponto de vista do autor sobre as telas. A obra, recentemente publicada na França pelas Éditions du Seuil, é uma chamada de atenção – mais uma – para os males que decorrem do uso excessivo das telas e tem encontrado um assinalável eco na imprensa do país.
Numa entrevista que o diário Le Monde publicou na edição datada de hoje, na página oito do suplemento Ciência & Medicina (“La multiplication des écrans engendre une décérébration à grande échelle”), Michel Desmurget explica que a convergência das múltiplas telas têm um forte impacto no cérebro das crianças, atrasando o desenvolvimento da linguagem, diminuindo o tempo e a qualidade do sono e perturbando o mecanismo da atenção.
“O cérebro – especialmente quando está em construção – não está preparado para sofrer um tal bombardeamento sensorial”.
É precisamente quando o cérebro se encontra numa fase de construção que os efeitos das telas são mais nefastos. Michel Desmurget refere que está demonstrado que, antes dos seis anos, as telas são prejudiciais se olhados mais de quinze minutos por dia. “Nos primeiros cinco a seis anos de vida, cada minuto conta: é um período de desenvolvimento absolutamente único, de aprendizagem, de plasticidade cerebral que nunca se voltará a repetir”. Além dos seis anos, até meia hora ou uma hora de consumo por dia, não há efeitos mensuráveis, desde que os conteúdos consultados sejam adaptados e que essa atividade não afete o sono.
O neurocientista julga que o tempo de acesso as telas excede e por muito o recomendável. “O que está acontecendo agora é uma nova experiência de descerebração em larga escala”, garante.
O nível médio de consumo das telas pelos adolescentes também é considerado problemático. De tal modo que Michel Desmurget considera que se pode falar de “uma epidemia entre adolescentes”. Para ele, trata-se de “um grande problema de saúde pública”. As telas têm “efeitos nocivos” na concentração.
Qualquer que seja o conteúdo ou o suporte, o cérebro não foi concebido para responder a tantas solicitações exógenas. Daí que um grande número de estudos tenha evidenciado o aumento de riscos de depressão, de ansiedade, de suicídio, relacionados com o tempo de exposição as telas.
O neurocientista acrescenta que os ecrãs contribuem ainda para a disseminação de conteúdos de risco sobre as drogas, o tabaco ou a sexualidade.
Michel Desmurget nota igualmente que, segundo as estatísticas mais recentes, a maioria dos adolescentes está com privação de sono – uma atividade fundamental. “Em grande parte, essa privação está ligada ao uso digital que retarda a hora de dormir (é necessário retirar de alguma parte o tempo dedicado as telas) e atrasa o sono (a luz emitida pelos telas perturba a secreção de melatonina, o hormônio do sono)”.
A lista de inconvenientes das telas inclui o enfraquecimento das capacidades cognitivas. Para Michel Desmurget, as telas interferem no desenvolvimento das aptidões verbais. Numa criança de 18 meses, por exemplo, por cada meia hora adicional gasta num dispositivo móvel, multiplica-se por 2,5 a probabilidade de ocorrerem atrasos na linguagem. Do mesmo modo, quanto mais importante é o tempo das telas, menos se usufruem os benefícios da escrita e da leitura.
O neurocientista lembra que existe uma forte ligação entre a riqueza da linguagem e o desempenho intelectual, citando Robert Sternberg, professor de psicologia cognitiva da Universidade de Yale, que afirmou que “o vocabulário é provavelmente o melhor indicador individual do nível de inteligência geral de uma pessoa”.
Sobre as reacções que provocam as chamadas de atenção, como as dele, relativamente aos perigos das telas, Michel Desmurget julga que os que afirmam: “Devemos usá-los de maneira racional” ou “Não seja muito alarmista” devem ser instados a confrontar-se com a realidade. E ela é examinada pelos profissionais que trabalham com as crianças e pelos professores. São eles os primeiros a constatar a existência de problemas com a atenção, a linguagem ou a aprendizagem.
A entrevista que Michel Desmurget concedeu a Pascale Santi e Stéphane Foucart serviu para o neurocientista contrariar uma opinião corrente, ao afirmar que, segundo alguns estudos académicos recentes, o melhor meio de agravar as desigualdades sociais na escola é usar o digital.
“Sempre o venderam como um meio de reduzir as desigualdades, mas, na realidade, agrava-as grandemente”.
As evidências são palpáveis: já há um tempo que o testes de QI têm apontado que as novas gerações são menos inteligentes que anteriores. Desmurget acumula vasta publicação científica e já passou por centros de pesquisa renomados como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.
Michel Desmurget: Sim. O QI é medido por um teste padrão. No entanto, não é um teste “estático”, sendo frequentemente revisado. Meus pais não fizeram o mesmo teste que eu, por exemplo, mas um grupo de pessoas pode ser submetido a uma versão antiga do teste.
E, ao fazer isso, os pesquisadores observaram em muitas partes do mundo que o QI aumentou de geração em geração. Isso foi chamado de ‘efeito Flynn’, em referência ao psicólogo americano que descreveu esse fenômeno. Mas recentemente, essa tendência começou a se reverter em vários países.É verdade que o QI é fortemente afetado por fatores como o sistema de saúde, o sistema escolar, a nutrição, etc. Mas se considerarmos os países onde os fatores socioeconômicos têm sido bastante estáveis por décadas, o ‘efeito Flynn’ começa a diminuir. Nesses países, os “nativos digitais” são os primeiros filhos a ter QI inferior ao dos pais. É uma tendência que foi documentada na Noruega, Dinamarca, Finlândia, Holanda, França, etc.

BBC News Mundo: E o que está causando essa diminuição no QI?
Desmurget: As causas também são claramente identificadas: diminuição da qualidade e quantidade das interações intrafamiliares, essenciais para o desenvolvimento da linguagem e do emocional; diminuição do tempo dedicado a outras atividades mais enriquecedoras (lição de casa, música, arte, leitura, etc.); perturbação do sono, que é quantitativamente reduzida e qualitativamente degradada; superestimulação da atenção, levando a distúrbios de concentração, aprendizagem e impulsividade; subestimulação intelectual, que impede o cérebro de desenvolver todo o seu potencial; e o sedentarismo excessivo que, além do desenvolvimento corporal, influencia a maturação cerebral.
Observou-se que o tempo gasto em frente a uma tela para fins recreativos atrasa a maturação anatômica e funcional do cérebro em várias redes cognitivas relacionadas à linguagem e à atenção. Deve-se ressaltar que nem todas as atividades alimentam a construção do cérebro com a mesma eficiência.

Desmurget: Ninguém diz que a “revolução digital” é ruim e deve ser interrompida. Eu próprio passo boa parte do meu dia de trabalho com ferramentas digitais. E quando minha filha entrou na escola primária, comecei a ensiná-la a usar alguns softwares de escritório e a pesquisar informações na internet.
BBC News Mundo: Quanto tempo as crianças e os jovens costumam passar em frente às telas?
É simplesmente insano e irresponsável.

O problema é que nenhum dos jornalistas que entrevistaram esse “especialista” mencionou que ela trabalhava para a indústria de videogames. E este é apenas um exemplo entre muitos descritos em meu livro. Isso não é algo novo: já aconteceu no passado com o tabaco, aquecimento global, pesticidas, açúcar, etc. Mas acho que há espaço para esperança. Com o tempo, a realidade se torna cada vez mais difícil de negar.

Em outro estudo, as crianças tiveram que aprender uma lista de palavras.
Uma hora depois, algumas puderam jogar um jogo de corrida de carros. Duas horas depois, foram para a cama. Na manhã seguinte, as crianças que não jogaram lembravam cerca de 80% da aula em comparação com 50% das que jogaram. Os autores descobriram que brincar interferia no sono e na memorização.
Vários estudos indicam que, ao contrário das crenças comuns, eles não são muito bons com computadores. Um relatório da União Europeia explica que a baixa competência digital impede a adoção de tecnologias educacionais nas escolas.
Outros estudos também indicam que eles não são muito eficientes no processamento e entendimento da vasta quantidade de informações disponíveis na internet.
Então, o que resta? Eles são obviamente bons para usar aplicativos digitais básicos, comprar produtos online, baixar músicas e filmes, etc.
Para mim, essas crianças se assemelham às descritas por Aldous Huxley em seu famoso romance distópico Admirável Mundo Novo: atordoadas por entretenimento bobo, privadas de linguagem, incapazes de refletir sobre o mundo, mas felizes com sua sina.

BBC News Mundo: Alguns países estão começando a legislar contra o uso de telas?
Um mundo triste em que, como disse o sociólogo Neil Postman, eles vão se divertir até a morte. Um mundo no qual, através do acesso constante e debilitante ao entretenimento, eles aprenderão a amar sua servidão. Desculpe por não ser mais otimista. Talvez (e espero que sim) eu esteja errado. Mas simplesmente não há desculpa para o que estamos fazendo com nossos filhos e como estamos colocando em risco seu futuro e desenvolvimento.
https://www.bbc.com/portuguese/geral-54736513