A decisão dos tribunais chineses contra demissões justificadas pela substituição por inteligência artificial abre uma pergunta urgente: se as empresas estão redesenhando o trabalho com IA, por que não reconfiguram também o lugar dos trabalhadores nessa transição?
A frase que ninguém quer ouvir: “seu trabalho foi substituído por IA”
Imagine tudo o que você precisou atravessar para chegar ao lugar onde está, anos de escola, faculdade, cursos, certificações, provas, cursos de idiomas, reuniões, apresentações, inseguranças, erros, acertos, recomeços. Uma trajetória longa, feita de esforço, tempo e investimento.
Então, um dia, você ou eu chega ao trabalho e descobre que foi demitido porque parte do que fazia agora pode ser executada por um modelo de inteligência artificial. E ainda resta uma ironia amarga: se for para perder o emprego para uma IA, que ao menos seja para um modelo excelente. Ser substituído por uma tecnologia mediana seria humilhação em dobro.
O que parece um exagero já começou a entrar no vocabulário de muitas empresas. Desde a difusão da Inteligência Artificial Generativa, diversas atividades passaram a sofrer pressão crescente, sobretudo (até o momento) aquelas compostas por tarefas digitais, repetitivas e baseadas em linguagem, dados, documentação, atendimento, entre outras. A IA já consegue gerar textos, imagens, vídeos, traduções, resumos, análises e respostas em escala, assumindo etapas antes realizadas por nós.
Relatórios da OCDE, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), do Fórum Econômico Mundial e de consultorias como a McKinsey vêm mostrando que a IA já está transformando profundamente o trabalho: algumas funções podem encolher muito, outras serão redesenhadas e novas ocupações devem surgir. O problema é que, enquanto o futuro ainda está sendo prometido, o presente já está cobrando a conta.
Algumas empresas passaram a anunciar cortes e reorganizações em meio ao avanço da IA. A Cloudflare, empresa de infraestrutura de internet e segurança cibernética, anunciou que, em Maio de 2026, cortará cerca de 20% da força de trabalho, a Block empresa de tecnologia americana que fornece serviços financeiros anunciou um corte de 4.000 funcionários. A Snap, dona do Snapchat também cortou cerca de 1.000 empregos aproximadamente 16% da equipe, a Microsoft demitiu cerca de 4.000 funcionários, quase 4% da sua força de trabalho, a Amazon cortou cerca de 30 mil cargos corporativos entre outubro de 2025 e janeiro de 2026.
A pergunta, então, deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser ética, organizacional e humana:
Por que demitir em vez de formar e gerar valor para a empresa?
O caso chinês: quando a Justiça disse que IA não é desculpa para demitir
Enquanto muitas empresas ocidentais anunciam cortes e demitem em nome da adoção da inteligência artificial, a Justiça chinesa começou a colocar um freio nesse discurso. A lógica é simples: se uma empresa adota IA para ganhar eficiência, reduzir custos e se tornar mais competitiva, ela não pode depois transferir ao trabalhador o risco dessa decisão. Quem escolheu automatizar foi a empresa. O funcionário não deve perder o trabalho por uma decisão da qual não participou. Do ponto de vista coletivo e moral, a empresa tem responsabilidade com cada trabalhador afetado pela transformação que ela mesma decidiu iniciar.
Foi exatamente essa lógica que apareceu no caso julgado em Hangzhou.
O caso envolve um funcionário identificado pelo sobrenome Zhou, contratado em 2022 por uma empresa chinesa de tecnologia. Zhou atuava como supervisor de garantia de qualidade, com salário mensal de 25 mil yuans (R$ 17,5 mil). Realizava tarefas essenciais para o funcionamento de modelos de linguagem, associava consultas de usuários aos modelos, filtrava conteúdos ilegais ou que violassem a privacidade e ajudava a garantir a qualidade das respostas geradas pela IA.
Com o avanço dos próprios modelos de linguagem, parte de suas funções passou a ser automatizada. A empresa tentou realocá-lo para um cargo inferior, com redução salarial de 25 mil para 15 mil yuans (R$ 10,5 mil). Zhou recusou a proposta, e a empresa decidiu rescindir seu contrato, alegando reestruturação organizacional e menor necessidade de pessoal.
O trabalhador contestou a demissão em arbitragem, pedindo compensação maior. O painel arbitral considerou a demissão ilegal, e a decisão foi mantida pelo Tribunal Popular Intermediário de Hangzhou, cidade considerada um polo de inteligência artificial na China.
O ponto central da decisão foi a interpretação de que a substituição por IA não configura automaticamente uma “mudança significativa nas circunstâncias objetivas” capaz de justificar legalmente a rescisão do contrato.
Para entender a decisão, é preciso explicar uma expressão jurídica importante: “mudança significativa nas circunstâncias objetivas”. Em termos simples, trata-se de uma situação externa, relevante e estrutural que muda tanto a realidade da empresa que o contrato de trabalho original se torna difícil ou impossível de manter. Pode ser, por exemplo, uma mudança de sede, uma fusão, o encerramento de uma unidade ou uma alteração profunda no contexto da atividade.
A empresa tentou enquadrar a substituição por IA nessa categoria. Ou seja, tentou dizer que os modelos de inteligência artificial haviam mudado tanto o trabalho que a demissão de Zhou seria uma consequência natural. O tribunal não aceitou esse argumento. Para a Justiça chinesa, adotar IA para ganhar eficiência foi uma escolha empresarial, não uma força externa inevitável. E, se foi uma escolha da empresa, seus riscos não podem ser simplesmente transferidos ao trabalhador.
A decisão não foi contra o uso da inteligência artificial. Foi contra o uso da inteligência artificial como justificativa para substituir o funcionário, reduzir direitos, reduzir o salário, rebaixar funções ou encerrar contratos.
A decisão judicial não aparece isolada. Ela dialoga com um movimento mais amplo da China para monitorar os impactos da inteligência artificial no emprego. Em 2026, o Ministério dos Recursos Humanos e Segurança Social afirmou que pretende acelerar mecanismos de monitoramento, alerta precoce e resposta aos efeitos da IA no mercado de trabalho. O 15º Plano Quinquenal chinês também prevê que os impactos de tecnologias emergentes sobre o emprego sejam incorporados a sistemas de avaliação, monitoramento e alerta.
O próprio governo chinês tem tentado responder ao impacto da IA não apenas com decisões judiciais, mas também com políticas de formação e reconhecimento de novas ocupações. Segundo o Ministério dos Recursos Humanos e Segurança Social, nos últimos cinco anos foram identificadas 72 novas ocupações, mais de 20 delas diretamente relacionadas à inteligência artificial. Entre os exemplos citados em fontes oficiais e estatais estão operador de sistemas de IA generativa, testador de sistemas de IA generativa, treinador de IA, treinador de humanos digitais, técnico de gêmeos digitais, engenheiro de robótica e funções ligadas a veículos inteligentes conectados.
O ganho de produtividade não deve ficar só com a empresa.
Essa discussão é complexa e profunda. Não pretendo trazer respostas, apenas levantar perguntas que a inteligência artificial tornou impossível ignorar.
Antes das IAs generativas, um profissional de tecnologia entregava X. Agora, com apoio de modelos generativos, pode entregar 10X. Porém, muitas vezes o salário continua o mesmo. Se a entrega aumenta, por que a remuneração, a jornada ou a participação nos ganhos continuam iguais?
Uma outra pergunta bem simples, mas nada confortável: se a IA multiplica a produtividade, quem fica com os outros 9X? Uma pergunta antiga: quem se apropria do valor produzido pelo seu trabalho?
Um sistema que antes poderia levar três meses para ser desenvolvido e mobilizar uma cadeia inteira de profissionais, designers, arquitetos de sistema, especialistas em UX, desenvolvedores, revisores, gestores de projeto e muitos outros, hoje pode ser prototipado em poucas semanas. Essa cadeia não desaparece, mas ela é comprimida, reorganizada ou reduzida em uma velocidade inédita. O impacto é brutal.
Essa discussão passa pela ideia famosa da mais-valia: a diferença entre o valor produzido pelo trabalhador e aquilo que retorna a ele como remuneração. Com a IA, essa diferença cresce e muito, porque a tecnologia amplia a produtividade, mas não garante que o ganho seja distribuído.
Será que estamos entrando em uma nova fase da precarização do trabalho cognitivo, criativo e digital?
A nova precarização pode vir com crachá e notebook
A precarização do trabalho não começa apenas quando alguém perde o emprego ou passa a trabalhar sem carteira assinada. Ela é um processo mais amplo de deterioração das condições de trabalho: menos estabilidade, menos proteção, mais pressão, mais insegurança e, o mais importante, transferir uma quantidade enorme de riscos para o trabalhador.
Desde as transformações produtivas dos anos 1970 e 1980, empresas passaram a buscar mais flexibilidade, redução de custos e aumento de produtividade. Essas ações abriram espaço para terceirizações, contratos temporários, pejotização, informalidade e enfraquecimento das garantias trabalhistas.
Mais recentemente, as plataformas digitais, como Uber e iFood, tornaram esse processo mais visível: o trabalhador parece autônomo, mas assume custos, riscos e instabilidades que antes pertenciam à empresa.
Será que a inteligência artificial pode criar uma nova etapa dessa precarização?
No futuro iremos chamar de IArização?
Perguntas frequentes sobre IA, trabalho e demissão
A inteligência artificial pode substituir trabalhadores?
A inteligência artificial pode automatizar tarefas específicas, especialmente atividades digitais, repetitivas e baseadas em linguagem, dados, documentação ou atendimento. Isso não significa que a pessoa inteira seja substituída, pois trabalhadores também carregam experiência, julgamento, contexto e memória institucional.
Empresas podem demitir funcionários para substituí-los por IA?
Depende da legislação de cada país. O caso chinês mostra que tribunais podem questionar demissões em que a IA é usada como justificativa automática. A decisão entendeu que a adoção de IA foi uma escolha empresarial, não uma fatalidade externa.
Qual foi o caso chinês sobre demissão por IA?
O caso envolveu um trabalhador identificado como Zhou, supervisor de garantia de qualidade em uma empresa de tecnologia. Parte de suas funções foi automatizada por modelos de IA, e a empresa tentou realocá-lo para um cargo inferior com redução salarial. A Justiça chinesa considerou a demissão ilegal.
Qual é a diferença entre substituir tarefas e substituir pessoas?
Substituir tarefas significa automatizar atividades específicas, como resumir textos, classificar dados, responder perguntas, revisar documentos ou gerar conteúdos. Substituir pessoas envolve ignorar sua experiência, julgamento, repertório, responsabilidade e capacidade de adaptação.
O que é IArização do trabalho?
IArização do trabalho é um conceito que descreve o uso da inteligência artificial para aumentar produtividade, reduzir custos e reorganizar tarefas, enquanto parte do risco da adaptação, da intensificação do trabalho ou da substituição é transferida para o trabalhador.
O que empresas deveriam fazer antes de adotar IA?
Empresas deveriam mapear quais tarefas serão automatizadas, avaliar impactos sobre trabalhadores, oferecer formação, realocar pessoas sempre que possível e assumir responsabilidade pelos efeitos da automação sobre o trabalho.
Referências
China Daily. Chinese courts rule AI-driven layoffs and pay cuts illegal. Disponível em: https://global.chinadaily.com.cn/a/202605/05/WS69f992b9a310d6866eb46ec1.html
Governo da China. China to harness AI in creating new jobs: minister. Disponível em: https://english.www.gov.cn/news/202603/07/content_WS69abb197c6d00ca5f9a09b22.html
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Reuters. Jack Dorsey’s Block to cut nearly half its workforce in AI overhaul. Disponível em: https://www.reuters.com/business/blocks-fourth-quarter-profit-rises-announces-over-4000-job-cuts-2026-02-26/
Reuters. Amazon to cut about 14,000 corporate jobs in AI push. Disponível em: https://www.reuters.com/sustainability/amazon-lay-off-about-14000-roles-2025-10-28/
Reuters. Amazon axes 16,000 jobs as it pushes AI and efficiency. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/litigation/amazon-cuts-16000-jobs-globally-broader-restructuring-2026-01-28/
Reuters. Companies cutting jobs as investments shift toward AI. Disponível em: https://www.reuters.com/business/world-at-work/companies-cutting-jobs-investments-shift-toward-ai-2026-05-05/
Fiocruz. Precarização do trabalho. Disponível em: https://www.trabalhonaaps.epsjv.fiocruz.br/glossario/precarizacao-do-trabalho
Abílio, L. C.; Amorim, H.; Grohmann, R. Uberização e plataformização do trabalho no Brasil: conceitos, processos e formas. Disponível em: https://www.scielo.br/j/soc/a/XDh9FZw9Bcy5GkYGzngPxwB/?lang=pt
Filgueiras, V.; Antunes, R. Plataformas digitais, uberização do trabalho e regulação no capitalismo contemporâneo. Disponível em: https://periodicos.uff.br/contracampo/article/view/38901/html
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Schor, J. B. et al. Dependence and precarity in the platform economy. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7410973/
Autor: Fernando Giannini
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