Um algoritmo para combater a evasão escolar na Argentina

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Desde 2022, as escolas da província de Mendoza têm usado a inteligência artificial para detectar os alunos com maior probabilidade de abandono precoce.

Escola VICTORIA OCAMPO

Aos pés das montanhas andinas de Precordillera, na cidade argentina de Mendoza, quase mil quilômetros a oeste de Buenos Aires, fica a escola secundária Victoria Ocampo. Essa escola estadual, localizada no distrito da classe trabalhadora de Brasil de Villa Hipódromo, é cercada por moradias improvisadas e começou a utilizar um algoritmo para combater a evasão escolar na Argentina.

“La Ocampo”, como é conhecida localmente, é uma das escolas que participam de um estudo piloto de um sistema de alerta precoce que usa software de inteligência artificial (IA) para evitar que as crianças abandonem a escola.

Lançada em 2022, essa iniciativa é financiada pela Tinker Foundation, com sede nos EUA. O sistema, projetado pelo Laboratório de Inteligência Artificial Aplicada da Universidade de Buenos Aires, envia alertas se for detectada uma evasão escolar e, em seguida, toma providências. A iniciativa abrange todos os alunos do ensino médio na província de Mendoza.

Painel de controle

O Algoritmo para combater a evasão escolar na Argentina, requer a existência de um banco de dados com pelo menos dois anos de existência, o que é o caso da província ocidental do país. O sistema fornece às escolas informações precisas sobre a situação de seus estudantes. “Quando um diretor da escola abre o módulo, aparece um ‘painel de controle’. Ele mostra um plano de suas aulas e uma lista dos estudantes. Ao lado de cada nome, um indicador luminoso sinaliza o risco de evasão escolar. O algoritmo mede quatro variáveis: resultados, faltas, nível de escolaridade da família e qualquer defasagem de idade”, explica Juan Cruz Perusia, especialista do Centro de Implementação de Políticas Públicas para Equidade e Crescimento.

Quando Manuel Giménez, diretor da escola Ocampo, consultou seu painel de controle, percebeu que os irmãos Esteban e Rodrigo – com 13 e 14 anos de idade e cursando o primeiro e o segundo ano do ensino médio – corriam um risco especial de abandonar a escola. “Esses alunos – mudei seus nomes – vêm de uma família que não considera sua educação uma prioridade. Eles vivem em uma das áreas de criação de gado no sopé das montanhas e sua frequência é quase zero. Por isso, decidimos usar outras ferramentas para reverter a situação. Por exemplo, o ‘sistema de ensino protegido’ nos permite elaborar um currículo adaptado à situação particular de cada aluno”, explica o diretor.

Identificação das causas

De acordo com dados da Pesquisa Permanente de Domicílios na Argentina, há uma taxa de evasão de 30% no ensino médio. Três em cada dez alunos não concluem seus estudos. Quando esse projeto foi lançado em 2022, a Argentina não tinha um sistema universal com bancos de dados que listassem os nomes, o histórico, os resultados, as faltas etc. dos alunos.

Três em cada dez alunos do ensino médio na Argentina não concluem seus estudos

“A consolidação de um banco de dados de todas as matrículas escolares ainda não foi concluída. Entretanto, com quase oito milhões de alunos registrados, o sistema já cobre 80% das matrículas e deve ser ampliado para cobrir todo o país nos próximos meses”, diz Jaime Perczyk, Ministro da Educação da Argentina.

A evasão escolar não está ligada apenas a problemas socioeconômicos. Francisco, um adolescente de 17 anos, frequenta a escola José Patrocinio Dávila, no distrito de Las Heras, em Mendoza. Matriculado no quarto ano do ensino médio, ele está atrasado em seus estudos devido a um longo tratamento médico. Quando o número do arquivo dele disparou um alerta, a diretora Eliana Moreira e sua equipe tomaram medidas para entrar em contato. Mas o método tem seus limites. “Ele não está motivado e não quer ir às aulas, então o que mais podemos fazer por ele?”, a equipe se pergunta.

Envolvimento emocional

Para José Thomás, Diretor Geral de Escolas da província de Mendoza, a iniciativa está sendo um sucesso. “Fiquei surpreso com a forma como os professores aceitaram o uso do software de IA. Além disso, ele envolve emocionalmente o diretor da escola. Eles têm as informações necessárias para estabelecer um vínculo emocional, o que é essencial nesse tipo de situação. O diretor sabe se o problema se deve à falta de apoio ao aluno, se ele precisa fazer algo para ajudar a família ou se o aluno está tendo dificuldades em determinadas matérias.”

Depois que os dados são coletados nas escolas, eles são repassados às autoridades provinciais. “O desafio é então usá-los de forma relevante, implementar políticas apropriadas e obter o orçamento necessário”, enfatiza José Thomás.

Nesse estágio, o projeto não está em andamento há tempo suficiente para avaliar sua eficácia. Mas o diretor da escola de Ocampo, que tem uma alta taxa de evasão escolar, está otimista. “A disponibilidade de ferramentas como essa nos ajuda muito. Ela nos mantém atentos. Não preenchemos apenas os números para fins administrativos; também aplicamos uma abordagem coerente ao que está acontecendo em nossa escola. Os números deixam de ser números e se tornam histórias.”

 

 

Autor: Natalia Páez – Jornalista em Buenos Aires, Argentina
Fonte: Unesco
Artigo original: https://bit.ly/45Kr8rN

Fernando Giannini

Pesquisador de tecnologia aplicada à educação, arquiteto de objetos virtuais de aprendizagem, fissurado em livros de grandes educadores e viciado em games de todos os tipos. Conhecimentos aprimorados em cursos de grandes empresas de tecnologia, principalmente no Google Business Educational Center e Microsoft. Sócio-proprietário da Streamer, empresa que alia tecnologia e educação. Experiência de 18 anos produzindo e criando objetos de aprendizagem, cursos a distância, design educacional, interfaces para sistemas de aprendizagem. Gestor de equipe para projetos educacionais, no Ensino Básico, Médio e Ensino Superior. Nesse período de trabalho gerenciou equipes e desenvolveu as habilidades de liderança e gestão. Acredita na integração e aplicação prática dos conhecimentos para a realização de projetos inovadores, sólidos e sustentáveis a longo prazo. Um dos grandes sonhos realizados foi o lançamento do curso gratuito Mande Bem no ENEM que atingiu mais de 500 mil estudantes em todo o Brasil contribuindo para a Educação Brasileira.

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